Uma jornada pela verdade
- Ug Cobra
- 8 de abr. de 2022
- 7 min de leitura
Atualizado: 14 de jan. de 2025
A verdade é um tema que convoca os psicanalistas. A Psicanálise é um método de investigação que busca auxiliar um sujeito a encontrar a sua verdade perante um sofrimento para então fazer algo com isso. Todavia, a verdade da qual ela se propõe procurar é de outro tipo, de outra ordem. É uma verdade que escapa da lógica comum ensinada a todos nós no processo da cultura. Desde a infância de todos nós, somos convocados a sermos bons meninos e meninas, que não mentem sobre o que fizeram. Com o tempo, naturalmente a criança percebe que os próprios pais que pedem a verdade sempre, eles mesmos escondem algo. Para alguns, a descoberta da outra verdade dos pais é traumática. Desta forma, ao começar a mentir, de certa forma a criança começou um movimento de autonomia em relação aos seus pais. Na vida adulta, compreendemos que todos nós adultos somos corrompidos e que a verdade e a mentira são cotidianas. Alguns até brincam “não deixe que a verdade estrague uma boa história”. Freud trabalhou incessantemente, até sua morte, para sustentar a verdade que é o inconsciente. E não somente isso, tentou nos mostrar que as verdades que tínhamos tão certas até então, elas mesmas podiam estar equivocadas. “O ego não é senhor em sua própria casa” é, de fato, uma ferida narcísica na humanidade. Afinal, se não há total controle da nossa volição, o que há então? Há uma outra coisa. Lacan nos diz que a verdade é não-toda, é semi-dita, é mal-dita e mais do que isso, é estruturada como uma ficção. Compreender que tudo aquilo que tínhamos como certeza em nossa narrativa pode não ser tão certo, é um dizer que não aceitamos a priori e que não vem sem angústia.
Freud dedicou sua vida à construção e manutenção do seu sistema de pensamento ao qual chamou de “descoberta de um pedacinho de sorte”. Seja por sua questão judaica, seja pelas experiências vividas na infância, seja pela influência do seu pai, seja pelo desejo materno expresso nas biografias, na qual a mãe de Freud sempre afirmava que seu filho seria grandioso. Algo na história daquele homem o animou para um desejo incessante de procurar, de compreender, de aprofundar.
Falar sobre o tema “verdade” em psicanálise é falar inevitavelmente sobre a origem do trabalho de Freud com as histéricas de sua época. Foi a ruptura dele com as verdades impostas pela Medicina da época que o fez encontrar algo diferente. Naquele tempo, os sintomas histéricos não conseguiam ser explicados pelas duas correntes preponderantes que diziam que uma doença teria explicação e etiologia fisiológica ou que era fruto da vontade. Muitas vezes, as histéricas eram tidas como mentirosas que demandavam atenção. Foi com os ensinamentos de Charcot que Freud começou a tecer um novo olhar sobre isso.
Através da leitura da obra freudiana no período que hoje entendemos historicamente como o de pré-fundação da Psicanálise, vemos que Freud até então estava muito confiante que a etiologia das neuroses tinha a ver com um momento traumático factual. Afinal, era isso que escutava em sua prática clínica. Sujeitos em sofrimento, cuja vida não ia bem, em algum momento traziam narrativas de um período anterior ao momento de sofrimento, falavam de seus pais ou tutores, em cenas que eram consideradas, no momento da fala, desprazerosas ou traumáticas. A partir desta teorização, conhecida como “teoria da sedução", Freud construiu uma lógica de investigação para o encontro com a verdade retirada da consciência através do recalcamento. Em seu texto “Projeto para uma psicologia científica para neurólogos” ele se dedica a explicar a dinâmica do aparelho psíquico em suas produções de sintoma e sua forma de funcionamento. A partir das produções desse período é que alcançamos outros conceitos que hoje são fundamentais na escuta clínica, tais quais desejo e fantasia.
Aquilo que me aparece como material interessante de reflexão foi a articulação que Freud fez com a ideia de Próton Pseudos. Este termo era utilizado na Grécia para indicar que “uma declaração falsa é o resultado de uma falsidade anterior”. Ou seja, podemos obter conclusões falsas de premissas falsas, mesmo que haja um raciocínio coerente. Algo que é mostrado que pode parecer verdadeiro, em uma análise mais próxima, pode revelar sua falsidade através da falsidade da primeira premissa. Esta é uma tese obtida nos Primeiros Analíticos de Aristóteles. Lembro-me de uma frase escrita no quadro em minha primeira aula da Maiêutica em 2011 que dizia o seguinte “Tudo que o olho vê, é engano”. É com a ideia de Próton Pseudos que Freud consegue demonstrar que as ideias excessivamente intensas apresentadas pelas histéricas para explicar seus sintomas, não são exatamente a verdade sobre a causa de seus sintomas. Mas mais do que isso, Freud foi capaz de perceber que a primeira mentira, ela não é feita como um gesto de má-fé, no qual a histérica mente para não confessar algo terrível e que esteja consciente, ela na verdade esconde de si mesma algo que não supõe conscientemente. A primeira mentira, que é uma verdade pela boca do doente, nada explica ou resolve. Freud foi capaz de ver que esta mentira traz em si outra verdade. Ou seja, com a ideia de próton-pseudos aliada à compreensão do trauma como um evento em dois tempos, no qual o segundo ressignifica o primeiro, ele obteve algo precioso. Algo que foi rompendo com as certezas médicas, criando uma relação dialética com a verdade.
É na visualização do caso Emma, apresentada no Projeto, que compreendemos a aplicação do Próton Pseudos. Emma é uma histérica que apresenta uma compulsão. Supostamente, ela não consegue entrar em lojas sozinha. Na investigação de Freud, Emma relata que aos doze anos (período após início da puberdade) havia entrado em uma loja para comprar algo e, ao notar que os vendedores riam dela, saiu correndo tomada por um afeto totalmente desprazeroso, como um susto pavoroso. Ela explica que os dois estavam rindo de suas roupas e que um deles a havia assediado sexualmente. Freud novamente nos aponta o caráter ininteligível da cena. Afinal, por que um riso sobre um vestido poderia causar tais afetos? Assim, a racionalização apresentada não explicaria a compulsão ou a gênese do sintoma. Freud conseguiu escutar algo aí. Após mais investigações, uma segunda cena surge no relato de Emma. Esta remete a um tempo anterior à primeira cena relatada. Esta nova cena acontece quando Emma estava com oito anos de idade. Trata-se de um dia em que ela, com oito anos, vai a uma confeitaria e lá o proprietário agarra seus genitais por cima da roupa. Apesar desta experiência, ela retornou uma segunda vez e depois não voltou mais. Assim, recriminava-se, tomada de culpa, como se tivesse desejado e provocado o abuso que havia sofrido. Freud então nos demonstra o mecanismo do trauma. Colocando as cenas lado a lado, ele nos mostra que havia uma relação entre os dois momentos e que o riso dos donos da loja forneceu a lembrança recalcada desprazerosa do riso do proprietário da confeitaria. Como na cena da confeitaria Emma ainda era uma pré-púbere, não haveria desejo sexual envolvido, mas após a puberdade, a cena com os vendedores tornou-se angustiante, pois ressignificou o primeiro momento no qual seus genitais haviam sido tocados. Quando com 8 anos, Emma era incapaz de uma liberação sexual e isto se transformou em angústia. Devido a essa angústia é que Emma saiu correndo da loja dos vendedores aos doze anos. Desta forma, Freud encontrou a gênese da compulsão histérica que assolava Emma. Ele encontrou a verdade, que estava atrás de uma mentira, que não se sabia mentira, mas que tinha aparência de verdade para a mulher que padecia de sintomas. Eis aqui também a noção do trauma como efeito de ação retardada. A complexidade destas percepções e compreensões é tão potente que inevitavelmente move o aparelho psíquico, fazendo-o trabalhar em movimentos de recalque e proteção.
Mesmo possuindo já algo de um método interessante para compreensão dos sintomas, algo ainda permanecia, que era a crença da etiologia das neuroses como fruto de um evento sexual traumático e factual. Durante algum tempo, Freud aferra-se a essa visão, mas eventos em sua vida vão pouco a pouco fazendo-o romper com suas certezas na etiologia das neuroses. Dentre estes eventos temos a ridicularização em público perante um auditório de médicos, no qual encontrava-se Richard von Krafft-Ebing, proeminente psiquiatra alemão da época e que afirmara na ocasião que a visão de Freud estava enviesada e se tratava de uma fábula. Temos também os efeitos da morte do pai de Freud, perda esta que Freud afirmou ser “a maior perda que um homem pode ter”. Além disso, a correspondência com Fliess e também a constante análise e observação das evidências clínicas que recebia no cotidiano de seus atendimentos.
Assim, dentro desta trama histórica repleta de eventos e reviravoltas é que Freud, em 1897, resolve abandonar completamente sua “neurótica” e insere definitivamente o conceito de “fantasia” dentro de seu sistema de pensamento. Decorrente desta compreensão, Freud também constrói a noção de realidade psíquica, o conceito de pulsão e o entendimento da realidade de uma sexualidade infantil. Mais adiante, entre 1897 e 1899, Freud utiliza-se do mito grego de Édipo para explicar a lógica da fantasia infantil, formadora da realidade psíquica do neurótico.
Com tudo isso, Freud pouco a pouco vai criando métodos, processos, teorias e explicações que nos mostram como o sujeito articula os momentos de sua história em uma narrativa com efeitos de verdade.
É aqui que, para mim, a questão da verdade toma outra dimensão. A Psicanálise de Freud, através de seus construtos, nos demonstra que para um sujeito não há uma verdade factual que explique e dê conta da vida. Para isso, ele constrói uma narrativa e uma verdade fantasmática, tentando articular faltas, buracos, afetos, traumas, desprazeres, tentando dar conta de suportar a vida e a castração. Tentando dar conta dos primeiros objetos de amor que “perdeu”, mas que nunca teve. Freud compreendeu que isto, que não é factual, tem efeitos de verdade e, portanto, é isso que devemos nos atentar: a verdade singular da fantasia de cada sujeito. Cada sujeito possui uma verdade e não há ninguém que possa dizer o contrário, pois a verdade é não-toda e tem estrutura de ficção. Devemos então postar nossos ouvidos em uma atenção flutuante, sem muito compromisso com a verdade que nos ensinaram, para poder ouvir uma verdade que circula em uma outra dimensão. Escutar a ficção-verdade dos sintomas que, ao ser falada e escutada, pode ser transformada para outra ficção, menos sofrida e mais fluida e produtiva.

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