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O impaciente em análise

  • Foto do escritor: Ug Cobra
    Ug Cobra
  • 31 de jan. de 2022
  • 3 min de leitura

Quando fui convocado para participar destas jornadas, pensei bastante no que gostaria de escrever. Me questionava, “farei um texto teórico ou algum tipo de relato?”. Não sabia ao certo, até um dia que, em análise, me deparei com uma articulação, que me chamou atenção: o impaciente. Este texto é um produto da experiência do divã.


Sabemos que no caminhar de uma análise, o sujeito empreende uma jornada que começa inicialmente por uma ilusão, que é a atribuição do “sujeito suposto saber” direcionada ao analista por via da transferência. Neste trajeto, ele falará primeiro na forma de uma queixa não implicada, que mais tarde, poderá dar espaço a uma retificação subjetiva. A partir desta retificação, começará a falar de um lugar diferente. Não mais como uma alma bela, mas como alguém que agora se questiona da sua responsabilidade no problema que se queixa, como nos alertou Freud no caso Dora.


Em um primeiro momento da análise, há um sofrimento que arrasta o sujeito. Ou ainda, um sofrimento pelo qual se faz arrastar. Esse sofrimento, fruto de um sintoma produzido pelo recalque, é algo que, por mais que doa, também traz um tipo de satisfação. Esta satisfação, por sua vez, engendra uma repetição. O paciente então repete atos, gestos e palavras de um sofrimento dentro de um engodo ao qual sabe muito pouco ou não sabe nada.


Do meu lado, entre trancos e barrancos, há algum tempo estou em análise. Desde lá, cinco analistas.


Neste caminhar, tantas coisas foram faladas. Mas afinal, o que é que tanto procuro naquele divã? Uma cura? Eis aí algo que sempre me “pegou” dentro do campo Psicanalítico. Esse entendimento de cura é diferente da Medicina e da própria Psicologia. Isto é, não há bem uma cura a ser buscada. Há outra coisa.


Na Medicina, sabemos bem que a cura é vista como um retorno ao estado anterior. Aquele órgão que produz de uma forma, agora não produz mais ou produz de maneira irregular. Ele deve retornar ao que era. Assim não funciona com a subjetividade. A cada encontro com o sofrimento, algo se repete e retorna ao lugar de origem. No sofrimento da alma, voltar ao início não é cura, é sintoma. Para curar é preciso ser algo-outro, diferente daquilo que se era.


Esta outra coisa, o que é? Seria uma transformação. Da posição de um paciente a um (im)paciente. Isto é, transformação da posição passiva e infantil, marca dos primeiros anos da travessia da fantasia, que é a análise. Essa tal impaciência, que surge como um significante-virtude meu, é algo que vem desde então, me transformando perante a vida.


Impaciente diante da posição de sofrimento. Impaciente às justificativas que poderia dar para não ter que pagar mais análise e me contentar com o divã somente às quintas-feiras.


Portanto, compreendo agora, anos depois de ter ido ao divã, que não bastam apenas pacientes racionalizações. É preciso realmente falar da fantasia, é preciso falar daquilo que não se sabe que se sabe. Aqui me deparo com a beleza da associação livre. É essa atuação livre/associação livre, que rompe com os modelos biomédicos de ação que visam assegurar um objeto claro de demanda e intervenção. A associação livre nos liberta da posição de “objeto do diagnóstico”. E ao rompermos essa posição, outra coisa surge e que está sendo escutada pelo analista em sua atenção flutuante.


Para concluir, associar livremente para mim, é algo como um gesto de impaciência com a posição de sofrimento. E aqui está a pegadinha. Até então, eu não sabia que não sabia associar livremente. Não me autorizava a falar livremente e eu não sabia. Era fala racional, vazia. Esperava pelo dia em que algo se operaria no meu conjunto de palavras que buscavam um acerto e então as portas da paz e plenitude se abririam como um movimento orgânico e natural. Nada disso. É preciso outras coisas. A começar então, um pouco de impaciência com tudo que está posto como uma certeza desde o dia em que nos entendemos como gente. É preciso falar impacientemente sobre o sofrimento que oprime e reprime um desejo, que também é impaciente em viver.


Texto apresentado por ocasião das Jornadas Internas da Maiêutica Florianópolis Instituição de Psicanálise.


 
 
 

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Ug Cobra
Psicólogo e Psicanalista

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