Amar é perder-se
- Ug Cobra
- 14 de jan. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 16 de jan. de 2025
Eu andei pensando sobre o amor. Já faz anos, inclusive. Me lembro que muito antes de estudar Psicanálise, tudo que se aprendia sobre o amor tinha a ver com aqueles conteúdos mais acessíveis da cultura, que ensinavam o roteiro clichê sobre o amor. Em segunda reflexão, acredito que o que falam bastante é sobre a paixão. Que é um sentimento arrebatador e que te deixa meio fora de si. A neurociência fala em oxitocina, mas qualquer bom cidadão vai negar que seja só reação química. Qualquer apaixonado vai batalhar para provar que aquela pessoa e aquela circunstância é diferente. Única. Afinal, ninguém quer ver seu amor como mais um elemento da estatística. “Tantos por cento dos casais que se apaixonam assim ou assado, se separam depois disso ou daquilo”. É tragicômico ver alguém apaixonado. Mas o amor é outra coisa. Tem-me parecido que se trata de outra coisa. Amar é perder. Não quero e não vou escrever um manual poético da minha visão do que é o amor. Cada que se vire na sua descoberta. Mas eu lembro bem quando me disseram que “o amor é o que mais nos interessa, porque é a única força que muda alguém”. Réplica: O ódio também muda! Tréplica: amor e ódio são faces da mesma moeda.
Amar é perder, eu repito para mim todas as manhãs quando acordo angustiado, pensando no desencontro amoroso das ideias e palavras com quem eu amo. Fui muito narcisista por tempos e isso não me caiu bem. Hoje, mais solitário de amigos e amores, eu vejo como amar o outro é um desafio que nos confronta em nosso narcisismo.
Se eu sou protagonista na minha pele e o outro é na dele, como a gente faz o meio de campo. E se ambos têm vazios de vida que não se preenchem, quem vai preencher quem?
Amar é perder, na medida em que isso nos convida a abrir mão da ilusão. Não só da ilusão que criamos do outro ideal que nos salva pelo amor. Mas de toda peça montada pelo romantismo. Amar é fazer jogo dessa falta e compreender que não há um outro que seja bala de prata pra minha angústia existencial. O outro é um parceiro de jornada da vida que marcha para a morte. Amar é se perder também. Com uma boa companhia, que talvez esteja menos idealizada, andando por Buenos Aires, Paris ou ali mesmo em Botafogo.



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