Reflexões ao som de fogos de artifício
- Ug Cobra
- 14 de jan. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 16 de jan. de 2025
O ano virou, espumantes e fogos explodiram na noite úmida e quente da virada e, aqui estamos novamente, diante do recomeço. Depois de um Dezembro que passei noites dormindo num sofá-cama de hospital, eu brinquei de pensar sobre a vida. Afinal, tudo isso é para quê? Para onde caminhamos? Hoje tenho clareza da inexorável presença da última fatia da vida, aquela onde todos os cabelos ficam mais brancos e os músculos um pouco mais fracos.
Na psicanálise usamos o termo “Real” para designar essas coisas que quando nos deparamos, ficamos sem palavras. Falar da vida é falar de um Real. A arte em suas expressões é uma tentativa de responder a isso. Aquele filme que toca na gente e faz chorar, que transmite alguma coisa, que levamos uns dias para digerir. Em outro tempo, poderia dizer daquele livro que nos faz pensar. Mas hoje em dia ninguém lê mais nada. O que também só mostra tamanho meu romantismo diante da vida em pensar que alguém vai ler qualquer crônica poética e “abobresca” que eu escrever aqui. Mas ainda assim, é preciso compartilhar, mesmo que para alguns poucos e bons (muito bons). A necessidade de viralizar é obrigação lá do Linkedin, dos empreendedores.
Com meus sutis 34 anos, o que eu peço é conexão. Mas não a ideia de conexão direta, harmonica, como operação matemática, mas aquele tipo de conexão no qual duas pessoas suportam suas incompletudes e diferenças e conseguem dialogar alguma coisa desse mal entendido esquisito. Quem faz análise há muito tempo sabe disso: que o que temos na sociedade é a descomunicação. A ideia de ‘fazer sentido’ é um ato de fé muito grande e até meio ingênuo. Então, quando aquele espumante se abre com toda sua promessa, eu fico imaginando como será meu futuro em dez ou vinte anos. Eu olho em volta e vejo tanta gente de branco, e penso nelas e nas suas histórias. Elas sabem dos anos que passam? Será que sabem o que significa solidão no meio da multidão? Eu vejo a vida desabrochar pelos filhos e filhas dos meus amigos. E eu vejo velhas histórias mais cristalizadas inflexíveis do que nunca. Será que qualquer palavra minha pode tocar alguém? A angústia que aparece após o barulho dos fogos indica mais um ano que começa.



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