Comunicação e "descomunicação"
- Ug Cobra
- 20 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Estamos em maus-lençóis quando acreditamos que a comunicação é algo objetivo, harmônico e livre de mal-entendidos.
A experiência clínica e teórica da Psicanálise nos demonstra que cada sujeito entende o mundo a partir de uma lente particular, que é a sua fantasia. Essa lente não só tem influência no que se vê, mas também no que se escuta e no que se sente.
Então, a mensagem que sai da boca ou dos dedos do outro, passará por essa lente, se transformando em nossa própria interpretação.
Ademais, Lacan nos mostra que muito do que achamos que escolhemos falar, é antes falado em nós por um Outro. O nosso inconsciente é esse Outro. Um outro tão fundamental que é a junção dos desejos que desejaram pra gente, guiando nosso jeito de ser no mundo.
Um terceiro ponto que trago é o corpo. Porque o corpo que fala é também afetado pela palavra. Afinal, quem nunca perdeu o apetite ou o foco depois de ler ou ouvir a seguinte frase: “precisamos conversar”?
O corpo também toma parte nessa troca, embora sempre pensemos que a atividade intelectual é separada dos efeitos no corpo.
A palavra é elemento fundamental no trabalho psicanalítico. É por via da palavra que o sujeito que sofre vai tentar elaborar e nomear algo da sua dor indizível. Porém, nessa experiência, a partir daquilo que retorna de sua fala pelo analista, ele vai perceber o abismo da comunicação e da suposta certeza de entendimento.
O paciente falará sem parar, tentando nomear e racionalizar aquilo que o aflige. Ele perceberá que seu discurso é cheio de contradições, que sua fala nunca alcança plenamente a fantasia e que, mesmo diante de uma resposta desejada, ela não será escutada ou não terá os efeitos que ele esperava no corpo.
Podemos perceber então, neste pequeníssimo amontoado de ideias psicanalíticas, que a comunicação está mais para um campo de batalha do que um espaço harmonioso, onde basta escolher a palavra certa e no tom certo, para que tudo funcione.
Uma análise é um dos caminhos que permite tornar-se advertido disso. Outros caminhos passam pelos “murros em ponta de faca”. Muitas vezes, para aprender sobre essa dura verdade da “descomunicação”, a gente tem que bater muito com a cara na parede.