top of page

Falar livremente no divã

  • Foto do escritor: Ug Cobra
    Ug Cobra
  • 20 de ago. de 2025
  • 2 min de leitura

A associação livre é, talvez, a proposta mais radical da psicanálise. Não porque te oferece uma liberdade (ninguém sente-se confortável em falar qualquer coisa quando convocado), mas porque esse simples convite incomoda e desmonta o paciente que está ali sendo convocado a essa regra fundamental.


Falar livremente é desafiar a lógica que nos governa sem sabermos. É escutar o que fala em nós, para além do eu. Mas quem realmente suporta isso?


Nossa fala pode se tornar estranha para nós. Um estranhamento clássico de quem avança na análise.


De onde vem isso? Respondo. ‘Isso’ que surge, vem da tua própria história que tu nunca ouviu longe da lógica que tu mesmo não conseguia abrir mão quando o analista te disse “fale livremente, fale o que vier à cabeça… fale qualquer coisa, qualquer bobagem”.


No fundo o analista parece um bobo ao propor isso, mas não há bobos nesse processo, porque no mínimo há um inconsciente que opera em circuitos pulsionais que estão muito bem estabelecidos há anos, atravessados pelos significantes primordiais, que produziam significação, sentido, identidade e identificação.


Cuidado. É o deserto do Real que vai aparecendo. É o sujeito barrado que aparece.

Aquele que não coincide consigo. Aquele que é atravessado por uma linguagem que já estava ali, antes do nascimento do próprio sujeito.


A fala livre convoca os restos do Outro: olhares, interdições, gozos. Por isso ela fere o narcisismo. Pois revela que o eu é ficção feita de silêncios, lutos não formulados e tudo o que recalcamos.


A angústia é o que pode advir de uma fala tão livre assim. Qualquer um já experimentou uma conversa longa, sabe que ela pode chegar em lugares inesperados.


A recusa em associar não é falta de assunto. É recusa em cair no simbólico: campo no qual o sujeito não é tudo, não sabe tudo, não tem tudo. O analista escuta justamente isso: a perda.


E o sujeito, aos poucos, vai eventualmente escutar também. Mas não somente com o ouvido, mas com a libra de carne. Carne trêmula. Que fala de um corpo, marcado pelos significantes de uma história que há muito tempo estava guardada no bolso.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

Ug Cobra
Psicólogo e Psicanalista

  • Instagram
  • LinkedIn
bottom of page