O desejo que surge de um objeto
- Ug Cobra
- 20 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Jacques-Alain Miller, famoso psicanalista francês, afirmou em entrevista que o que pode ligar uma pessoa a outra em um laço amoroso por uma vida é um pequeno traço, que o sujeito pode nunca se dar conta. Este pequeno traço pode ser tão tolo quanto um brilho no nariz, uma cor de cabelo, a covinha do sorriso, etc.
Esse pequeno traço, que podemos chamar aqui de um pequeno objeto, é como um elemento da nossa realidade interna, que se apresenta nas pessoas que nos chamam atenção, que nos causam desejo. Esse é então um “objeto causa de desejo”, que possui uma potência tamanha, que o encontro com ele nos arranca do marasmo e nos leva aos mais sutis e intensos gestos e ações.
O sujeito a quem nos apaixonamos possui em si esse objeto, sem que ele ou nós saibamos, posto que essa percepção é inconsciente. Quando nos perguntam “porque você ama fulana”, o sujeito responde “não sei… mas sei que é ela!”.
É nossa fantasia quem se encarrega em muitas vezes inflar ainda mais esses objetos de tal forma que nos fixamos nele e pensamos “essa é a pessoa da minha vida, minha completude, minha razão”. A dor de um final de relacionamento se liga nessa lógica. Uma vez que o objeto vai embora ou cai da pessoa que amávamos, o que fica é um vazio. Nossa vida perde o objeto maravilhoso de satisfação e prazer, que nos era a promessa de finalmente termos um sentido último para a existência.
Tamanha é a complexidade dos encontros entre pessoas, que sem saberem podem começar a se desejarem e se amarem. O amor, o gozo, o desejo, são elementos de alta complexidade e que vemos recorrentemente na clínica, pois são também aquilo que mais mexe com o sujeito na sua vida. Ele pode ter boletos e obrigações, mas tudo perde importância perante um amor não correspondido… ou pior: um amor correspondido!
Esse objeto se configura com tal potência porque é derivado das vivências mais intensas que são aquelas ocorridas na infância. Nossa forma de amar na vida adulta, se relaciona com o passado.
É tudo isso que está condensado na demanda de uma pessoa que procura uma análise para lidar com o sofrimento que sente diante do amor e do desejo por outra pessoa. Temos aí, o céu e o inferno de cada um...



Comentários