Segura na palavra
- Ug Cobra
- 14 de jan. de 2025
- 2 min de leitura
“Segura na palavra, segura no osso, aguenta! Porque isso vai passar também…” me disse um dia o velho mestre enquanto eu falava do divã, a respeito das coisas que faziam minha alma sangrar.
Na vida de todos nós, em algum momento, inevitavelmente, nós vamos nos deparar com uma situação que vai nos virar de ponta cabeça. Não há como evitar. São nesses momentos, em toda sua angústia e seu ardor que vivemos a travessia de um inferno. Vivemos a mais suprema experiência de desamparo, de medo e confusão.
O que fazemos com isso? Qual é o céu que nos protege? Quem é aquele(a) que pode me abraçar, me dar conforto e garantias de que vou sobreviver, de que tudo isso vai acabar?
Segura na palavra. Essa foi uma das lições que a psicanálise me transmitiu através dos anos. “Segura” do verbo segurar algo, pode ser a primeira impressão direta. Aguenta firme com as palavras. Mas há também um outro dizer aí… “(você está) segura nas palavras.
As palavras como um campo possível no qual poderemos encontrar proteção. Falar pode ser um remédio, cuja cura não te leva a um estado anterior, mas para outro lugar. Esses novos lugares não existem sem sacrifício. Em cada um desses momentos em que navegamos pelo inferno dos afetos, a palavra pode ser uma boia salva-vidas que nos impede de nos afogarmos na brutalidade real da vida.
As palavras podem ser faladas, mas também escritas. Elas podem também ser aquilo que permite um corpo mortificado, arrasado e destruído pelas interdições da vida, a se recompor, a ter um novo pulsar. A palavra, ela pode ser uma canoa de travessia aos lugares assombrados que nos prendem e nos deixam lá, obcecados e famintos, Implorando e implorando, por atenção, por amor.
Os bebês não falam, as crianças pedem que o pai fale por elas. Os adultos precisam falar e pedir se quiserem viver. Perder o medo e pedir.
A sabedoria vem depois de uma perda e muitas vezes nos perdemos de nós. Que mesmo em meio a pior guerra, a gente insista em falar e segure o que é nosso também.



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