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Startups são pessoas: Os desafios de cuidar de um empreendedor

  • Foto do escritor: Ug Cobra
    Ug Cobra
  • 11 de mar. de 2021
  • 6 min de leitura

Nestes últimos três anos trabalhando com startups, muitos questionamentos surgiram para mim, tais como: “qual a importância da Psicologia dentro do ecossistema empreendedor?” e “será que os empreendedores sabem o que faz um Psicólogo?”. Muito embora todos tenhamos um feeling dessas respostas, não vemos muitos textos falando a respeito. Me inspirei em escrever minha contribuição. Mas quem sou eu? Sou Psicólogo e atuo como tal aqui no Darwin, uma comunidade de empreendedores, mentores e corporações que visam trazer inovação para o mercado. Do início: Silicon Valley e o CEO estressado! Outra noite, durante uma maratona de episódios do seriado “Silicon Valley” na HBO, vi uma cena que me chamou atenção. Segunda temporada, Richard Hendricks— CEO do PiedPiper, protagonista da série — começa a apresentar um quadro de sudorese noturna em função do intenso estresse que está vivendo. Quando vai ao médico o mesmo lhe pergunta “Porque você está tão estressado?”, ao que ele responde de forma angustiada “Parece que a todo momento tenho um problema para resolver na empresa, minha vida está um caos”. Esta cena foi marcante. No mesmo momento que via Richard reclamar da sua condição como empreendedor e CEO de uma pequena empresa com uma grande ideia, lembrei-me de tudo que já presenciei com os empreendedores que acompanho no Darwin. Ao longo da série Silicon Valley vemos as desventuras de Richard ao empreender. Todo episódio é uma nova luta, desde conseguir funding, manter o cap table da empresa saudável, melhorar o produto — episódio interessantíssimo do TechCrunch Disrupt — , encarar processos judiciais impetrados pelo concorrente, perder investidores, etc. Como de costume, fala-se pouco ou quase nada sobre o equilíbrio emocional de Richard — ou de empreendedores em geral — em meio à tudo isso. A figura da saúde no seriado se resume a um médico empreendedor, que mais se diverte dando diagnósticos do que outra coisa. Não vemos nenhum personagem que faça alusão a um profissional da saúde mental ou ainda personagens discutindo sobre isso com a devida atenção. Em algumas cenas é possível notar apoio vindo de seus colegas de equipe na forma de conselhos hilários ou atitudes meio atrapalhadas. As vezes vemos na figura de Erlich Bachman — dono da Incubadora onde está o PiedPiper e co-founder da hilária Aviato — e Gilfoyle — Backend da PiedPiper — a imagem de apoio e suporte para o estressado Richard. Aqui no Darwin, damos aos nossos “Richards” acesso direto à um profissional capacitado para auxiliá-los no cuidado à sua saúde mental.

Por que fazemos isso? Porque um de nossos valores fundamentais é o seguinte: Startups são pessoas. Logo, cuide da pessoa e a startup terá mais chances de crescer, sobreviver e vencer. De fato, colocar um Psicólogo dentro de um ambiente empreendedor é novidade. Geralmente a figura do Psicólogo, aos olhos da sociedade, é algo mais nebuloso e distante, envolto em mistério. Um profissional que todos sabemos que existe, que muitas vezes ACHAMOS saber no que ele poderia ser útil, mas que nenhum de nós de fato tem a coragem ou o desejo de consultar rotineiramente. Isso se deve à alguns fatores.

O primeiro deles, sendo objetivo: o estigma de — supostamente — demonstrar fraqueza. O segundo, que possui relação com o primeiro, atribuo ao aspecto cultural do Brasil. Assim como nos Estados Unidos, o Brasil é adepto do pensamento do self-made man, o homem auto-suficiente que ‘se vira’ e não tem tempo a perder. Dentro dessa lógica, time is money e sendo assim, cuidar da sua mente pode ser perda de tempo.

Aos poucos estamos quebrando isso. O tema saúde mental está sendo mais falado através de campanhas públicas e publicações nas redes sociais de influenciadores. Outro ponto é o desconhecimento a respeito da amplitude de atuação de um profissional da Psicologia. O senso comum diz que psicólogo atende unicamente ‘aos loucos’ e essa é sua função primordial, porém poucos sabem que o psicólogo é habilitado a fazer muito mais. Em suma, onde existir um ser humano, lá o Psicólogo poderá ser útil. Uma vez que ele compreende o sujeito através de extensa literatura científica e prática vivencial, poderá desenvolver estratégias para melhorar a qualidade de vida dos sujeitos ali presentes.

Um último ponto que acho válido diz respeito ao pensamento de que a figura do amigo, do padre ou do coach pode suprir a do Psicólogo.

Mas e aí?

Bom, o ponto aqui é escrever a respeito da finalidade da Psicologia nos ambientes empreendedores. Eu respondo, afinal:

Auxiliar e empoderar o empreendedor através da escuta técnica à encarar os desafios do seu dia-a-dia, de forma que não deteriore sua saúde física e mental ao ponto da exaustão. Que consiga se instrumentalizar e formar suas redes de apoio para entender e superar medos, traumas e sofrimentos que surgirão em meio ao caos e estresse de colocar uma empresa de pé! Para que não tenha o mesmo destino do estressado Richard Hendricks.

Como ele — o Psicólogo — faz isso?

Não é possível em alguns parágrafos demonstrar o que é feito em uma sessão com um Psicólogo, porém, é possível tentar transmitir algo. Lembrando sempre que meu referencial teórico na clínica é o da Psicanálise. Uma consulta necessita antes de mais nada que haja vontade por parte do paciente de falar a respeito de si e seus problemas e demandas. Uma vez que isto ocorre, o Psicólogo conduz inicialmente o paciente a falar sobre o tema que ele desejar, sem restrições. Com o desenvolvimento do diálogo, os laços de confianças se fortalecem e o paciente se aprofunda ainda mais na conversa. Este laço de confiança em conjunto com boas interpretações por parte do Psicólogo, dão abertura — gradualmente — à um estado de consciência diferenciado, no qual o paciente sai da posição de vítima — ou alma bela — para uma posição de implicação subjetiva ou uma posição de responsabilidade.

O grande desafio é conseguir que aquele que está falando ao Psicólogo ascenda à essa condição de responsabilidade. Que comece a questionar para si mesmo “qual minha responsabilidade na bagunça que me queixo?”. Neste momento, quando o paciente começa a se questionar disso, o Psicólogo intervem com mais precisão e força para a construção de novas posições subjetivas (i.e uma nova visão de mundo). Cada encontro é um passo novo, uma conquista nova. Novos olhares para velhos temas. De repente o Psicólogo sai da posição daquele que ‘comanda’ — posição essa que nunca existiu senão por uma suposição do paciente — para aquele que apenas dá a direção do processo. Ele, então, se ocupa do lugar do morto, não colocando suas vontades na interação, apenas restringindo-se à escutar as demandas daquele paciente, ajudando-o sem dar qualquer palpite pessoal. Uma vez que este estado das coisas é alcançado, será possível presenciar a evolução do paciente frente aos seus problemas. Criando novas posturas e novos pensamentos. Alterando — sem perceber — algo da sua subjetividade.

Em suma, este é um árduo trabalho, pois envolve muitos elementos subjetivos e tal condição as vezes se torna um problema para pessoas que prezam por uma objetividade em relação a própria história — algo que por si só é impossível. Lembro a todos que tudo isso começa com o desejo do paciente em falar. Se isso não existir, todo o resto também não existirá. Este foi um pequeno exemplo do que pode acontecer em um processo psicológico. Mas até chegarmos a este ponto, muitas barreiras surgirão. Fora os desafios que o Psicólogo encara com o senso-comum, através da compreensão rasa da abrangência da Psicologia e a cultura do não-cuidado de si, existe ainda o preconceito que surge como mecanismo de defesa. Ainda assim, seguimos no maravilhoso desafio de cuidar de pessoas.

A propósito, já que começamos falando de uma série, recomendo duas bem interessantes sobre a atuação do Psicólogo: In Treatment e Psi, ambas do canal HBO.

O que fica?

Ao final de tudo isso, fica a pergunta, como você — empreendedor ou não — tem cuidado da sua saúde mental? O que tem feito? Com quem você desabafa? Quem são aqueles que formam sua rede de apoio? Quando foi a última vez que você pensou na vida: passado, presente e futuro? Estas pequenas perguntas já bastam para te tirar do modo automático e raciocinar sobre o mundo que te cerca com seus desafios e quem sabe — agora que você sabe um pouco mais do que ele faz e os desafios que enfrenta — a procurar um aliado no Psicólogo.



 
 
 

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Ug Cobra
Psicólogo e Psicanalista

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