Um amor possível
- Ug Cobra
- 20 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
O amor nos interessa porque promete plenitude. Um fim à busca. Um “agora sim”. Ele nos embriaga com a fantasia de que, finalmente, alguém nos verá por inteiro e que seremos inteiros. Que dessa vez o tédio da vida não vai fazer barulho. Que agora seremos importantes em uma outra história, dando à nossa história algum sentido também.
A psicanálise não organiza o amor em categorias simples, mas escuta sua lógica e seus desdobramentos. Há duas formas de amor que me interessa desenvolver aqui: O primeiro é o amor narcísico, que se sustenta na ilusão de que o outro é espelho. Um amor que busca confirmação, aplauso e reflexo. Amamos quem nos deseja como gostaríamos de ser desejados. Mas é só o outro deixar de refletir o que queremos ver, e a cena se desfaz. Porque nesse amor, o que nos liga é a ilusão e não um laço com a pessoa imperfeita, com suas limitações.
O outro amor é aquele atravessado pela linguagem. Um amor que reconhece o mal-entendido, a incompletude, o risco. Este amor é mais difícil e pode surgir depois de um processo de análise. Um amor a três: eu, tu e o simbólico. Nesse amor, não há promessa de completude porque ali já se reconhece que a falta não se resolve no outro. Há construção. O desejo não é apagado, mas sustentado. O laço não é um reflexo, mas uma invenção.
Amar, nesse registro, não é fusão. É deixar o outro ser. E suportar o que isso traz: diferenças, silêncios, falhas, intervalos. É aceitar que o amor só existe onde a falta não é negada. Amar é um gesto ético. Não é espetáculo, nem prêmio. É trabalho.
E talvez isso não soe romântico. Mas talvez seja justamente isso que torna o amor mais possível. Quem sabe, em algum lugar do tempo, ainda haja espaço para um tipo de encontro que não exija provas, mas presença. Um amor que não tente completar o que falta, mas que saiba existir ao lado. Sem espetáculo. Sem enredo antigo. Um laço que não queira salvar ninguém, mas sustente o simples fato de poder estar junto. Inventando a vida, negociando possibilidades, criando formas de seguir com essa falta inevitável que existe em nós.



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