Uma crônica sobre a paixão e outras drogas
- Ug Cobra
- 20 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Um dia, uma pessoa que muito admiro, me falou de uma reação que teve a ler alguns textos que escrevi sobre o amor. Ela falou assim “quando eu li eu pensei, caraca, será que ele tava drogado quando escreveu isso?”. Eu sorri e rapidamente disse “não estava drogado não!”.
Porém, se eram textos sobre amor que escrevi em momentos de dor e desamor, será que de alguma forma, eu não estava drogado?
Mais tarde, andando em minha análise e elucubrações sobre a vida, eu compreendi que na verdade, quase sempre estamos, de alguma forma, drogados e embriagados.
Mas não é por nenhuma droga física, senão nossa própria fantasia. Nossa lente pessoal para analisar a vida e tudo que fazemos na vida. Uma lente que atua mesmo quando não queremos isso. Indissociável de nós.
O amor é genuinamente uma droga. Mas também um véu. Um véu que nos entorpece e nos tira da convivência com o buraco estrutural que temos no peito. Muitos filósofos vão falar desse buraco. É o buraco que nos leva aos desejos. Mas para além dos filósofos, uma classe mais poderosa também vai falar disso: os poetas.
O mistério da paixão não é nenhum mistério, se a gente se debruçar com coragem para desfazer essa ilusão. Criar um saber. Mas enquanto ela existe como mistério, como coisa que pulsa no nosso peito e nos faz ver a pessoa amada com o ser supremo de nossa verdade, daí então, estamos num campo do prazer.
Paixão é uma palavra que vem do latim e significa “sofrer”. Amamos estar apaixonados porque naquele sofrimento temos um lembrete irremediável de que estamos vivos e que podemos morrer. E isso dá significado à vida. Isso nos dá um objeto que - supostamente - nos completará dali em diante.
Então acho que no final das contas, aquela pessoa fez a pergunta certa e eu dei a resposta errada. Eu estava drogado sim. E todos nós estamos em algum momento da vida quando nos apaixonamos.
O que a paixão nos causa, é material para um outro texto e quiçá um livro inteiro.
Os poetas sábios nos mostram o que descobrimos depois. Termino com Baudelaire: “Deveis estar sempre embriagados. Aqui reside tudo. É a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que vos esmaga os ombros e vos verga para a terra [...]”



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